Postagens

Sobre a obra literária “Cais da Sagração” do escritor Maranhense “Josué Montello”.

Imagem
  Chegaram até mim, pelas mãos de minha prima que estava passeando pelo Maranhão, algumas coisas. De uma família muito querida vieram alguns camarões. E a meu pedido, ela me comprou um livro que há tempos queria possuir. Os camarões, decidi comê-los aos poucos. Um bocado hoje, outro bocado três dias para a frente e assim está sendo. Como-os regradamente não querendo que acabem logo, tentando assim adiar o seu inevitável fim. Eu mesmo os preparo. Quero ter o prazer de escolhê-los e levá-los ao fogo. A decisão de ser o único a participar deste ritual é um ato egoísta. Assim sou, antes de qualquer outro, o primeiro a sentir o aroma ascendendo da panela - como que querendo que não sobrasse seu cheiro para mais ninguém. Também sou o primeiro a colocá-los, depois de prontos, jeitosamente no prato. Também sendo o primeiro a comê-los. E digo isso sem pudor algum: "sou o primeiro a comê-los. Primeiro e o único". Os de minha família não são afeitos a frutos do mar. "Ainda bem!...

IMPLACÁVEL COMBATE

Imagem
              Paira novamente sobre mim  tristes pressentimentos maus. Eles me furtam o sono bem diante dos meus olhos  e como dantes não posso nada fazer. Povoa minha mente com receio  e minhas carnes com um vulgar tremor. Minha boca seca  por mais que se derrame nela pouco ou abundante água.  Do que fui feito? Das cinzas de um algoz? Decerto findaria minha noite se houvesse em minhas mãos  poder para empurrá-la quarto a fora. E mesmo ela espontaneamente me deixando - ao amanhecer  sinto que ainda me espreita. São os medos - aqueles mesmos do passado  voltando a me atormentar. Vem trajados com outras cores, panos, máscaras e tecidos  mas os reconheço pois tens o mesmo enfado cheiro.  Eles não tocam em mim mas como cadáveres  exalam putrefato e insuportável odor. Não me tocam mas molestam-me como que sussurrando:  haverá outra batalha quem sabe a derradeira. Não sem...

VERDADEIRA INFÂNCIA

Imagem
Juscelino Barão Lembro-me muito bem do Cine Spark. Na parte de fora meu irmão e eu podíamos brincar por descer e subir correndo as escadas, ficar se balançando e virando cambalhotas nos ferros das grades de proteção dos corrimões e da escadarias. Brincávamos assim praticamente todo dia, pois era lá a parada final dos ônibus da cidade. Só nos dias de domingo quando estávamos lá dentro a gente ficava quietinhos, quietinhos esperando a hora do filme começar. Quando as luzes do salão se apagavam e a grande tela se iluminava, nossos corações se enchia de emoção. Ruim mesmo era no fim do filme quando tínhamos que ir embora e a luzes se acendiam. Os olhos d-o-í-a-m... Um dos últimos filmes que assisti lá foi "Os Trapalhões na Serra Pelada". Nosso pai (José Luis Barão - Perigo) nos levava para assistirmos todos os filmes dos Trapalhões. Umas das poucas coisas que eu conseguia me lembrar desse filme e que me marcou muito foi o final quando Didi sem querer encontrou uma pedr...

MEU ÚLTIMO CIRCO

Imagem
Juscelino Barão           Aquele domingo parecia como o de hoje. Éramos três meninos banhados, penteados, perfumados e bem vestidos para assistir a um espetáculo de fim de tarde. Um circo estava na cidade.           O mais velho de nós devia ter no máximo onze anos, mesmo assim saímos sozinhos. Fomos rápido para o terreno que ficava perto da prefeitura, era lá que os circos e parques eram montados. Não nos permitimos desviar a atenção do nosso objetivo, nem de nossa rota - meninos sempre se distraem com facilidade. O som hipnótico que vinha dos alto falantes do circo mesmo de longe, nos guiava até ele. Queríamos a todo custo chegar lá rapidamente. E como foi magnífico ver de novo instalado em nossa cidade o templo da alegria e diversão.           Faz bastante tempo, mas consigo recordar algumas coisas daquele domingo. Consigo lembrar o cheiro bom de algodão doce sendo feito na hora, do quebra-queixo s...

Toda vez que olho para o mundo

Juscelino Barão     Eu tinha seis ou sete anos quando o sentimento que descrevo agora me tocou pela primeira vez. Estávamos quase na metade dos anos 80 e a boa moral ainda tinha vez. Fui criado numa família que prezava os bons costumes. Nunca ouvi meu pai dizer um palavrão, contar ou se divertir com piadas obscenas. Nunca saiu de sua boca conversas tolas e sempre protegia a mim e a meu irmão de influencias negativas, meninos com mentes adiantadas para suas idades e que eram viciados em mentir. Proibições essas que sempre respeitamos. Nesta época tudo parecia tão fácil, bom e puro, menos pelo fato de eu não compreender como certos adultos se permitiam escutar, rir e aprovar as músicas de duplo sentido. Era muito estranho ver vizinhos que pareciam ter boa moral se divertindo com esse tipo de música. Minha mente infantil não conseguia entender. Eu pensava: ‘se a imoralidade é errada, como ele pode rir como que aprovando uma coisa destas. Ele deveria ficar indignado e desl...

PERFUME DE LAVANDA

Juscelino Barão Encontrei na dispensa um produto que por causa da modernidade ganhou uma embalagem nova e diferente. Tomei nas mãos o lustra-móveis, abri a tampa e levei a abertura do frasco ao nariz para sentir o cheiro e eis uma ‘máquina do tempo’. Fui transportado imediatamente à nossa casa quando criança. Minha mãe tinha o cuidado de trazer tudo organizado, limpo e bonito. Em todos os móveis de madeira da casa ela aplicava aquele produto e com aquele mesmo cheiro. Consegui ver momentaneamente nossa sala, os móveis, a porta aberta com vento entrando espalhando o perfume bom de casa limpa e o sorriso maravilhoso de minha mãe. Depois dessa experiência rápida meu coração se encheu de saudades. Confesso, ‘voltei na dispensa umas duas ou três vezes’ só pra sentir de novo aquele cheirinho bom e voltar no tempo. Só pra novamente ver nossa antiga casa e o sorriso alegre de minha mãe. São Luis-MA, 16 de março de 2012

NÃO DEMORAREI

Juscelino Barão Quando eu era bem pequeno, parte de minha família fez uma viagem até a cidade de Petrolina no Pernambuco. Tinha vaga lembrança do grandioso rio São Francisco, das velas dos barcos de pesca e da ponte que a liga a Juazeiro. Isso ficou tão indelevelmente marcado em minha memória que quando adolescente quis voltar lá com meu avô. De improviso, fizemos a tal viagem. Infelizmente as fotos, melhor dizendo, o rolo de filme dessa viagem nunca mais encontrei. Entretanto, essas duas viagens – a da infância e a de minha adolescência com meu avô – marcaram-me muito como ser humano. Anos depois a vontade de rever as duas cidades-irmãs, Petrolina e Juazeiro, me corroia a alma e deixava-me sem fôlego. Só agora entendi que a viagem com meu avô tinha aberto as portas daquelas terras antes escondidas na minha memória. Assim, voltei lá algumas vezes, mas agora, sozinho. Essas viagens sempre tinham para mim um sabor de aventura responsável, mesmo sendo apenas um adolescente. Existem lembra...