Uma carta


São Luis-MA, 30 de maio de 2.010.
Saudações!
Oi, deixa-me confessar algo.
Sabes, não me lembro dos traços do teu rosto e nem da tua voz?
Podes ficar até um pouco chateado lendo isso. Mas peço-te para que não fiques, mas é a pura verdade.
O que lembro mesmo são apenas sombras de alguém que eu não me recordo o rosto, afinal de contas só passamos juntos alguns dias. Mas eu sei muito bem quem ele era. Sei quem era aquele me ensinando a desenhar e a pintar. Sei quem era aquele que me dava dicas de como tocar flauta e que me incentivava a correr bem ‘rapidão’ na frente da casa de vovó Paixão, como se me preparasse para competir. Destas coisas, lembro-me nitidamente.
Muitas pessoas que passaram em nossa vida são pedaços de ‘um todo’ da pessoa que somos. Elas sem querer nos deixam indeléveis e sutis lembranças do que ‘fomos’ e do que ‘devemos ser’.
E eu que não te abracei bem forte no dia que você voltava para Teresina porque achava que - dentro de um ou dois anos - iria vê-lo novamente e hoje faz mais de vinte. Deve ser por isso que não lembro mais do teu rosto. Mas isso não quer dizer nada, pois sutilmente você - que não me recordo o sorriso e nem o tom da voz - me faz lembrar constantemente quem ‘fui’ e o que ‘devo continuar sendo’.
Um abraço meu primo.
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