NÃO DEMORAREI
Juscelino Barão
Quando eu era bem pequeno, parte de minha família fez uma viagem até a cidade de Petrolina no Pernambuco. Tinha vaga lembrança do grandioso rio São Francisco, das velas dos barcos de pesca e da ponte que a liga a Juazeiro. Isso ficou tão indelevelmente marcado em minha memória que quando adolescente quis voltar lá com meu avô. De improviso, fizemos a tal viagem. Infelizmente as fotos, melhor dizendo, o rolo de filme dessa viagem nunca mais encontrei. Entretanto, essas duas viagens – a da infância e a de minha adolescência com meu avô – marcaram-me muito como ser humano.
Anos depois a vontade de rever as duas cidades-irmãs, Petrolina e Juazeiro, me corroia a alma e deixava-me sem fôlego. Só agora entendi que a viagem com meu avô tinha aberto as portas daquelas terras antes escondidas na minha memória. Assim, voltei lá algumas vezes, mas agora, sozinho. Essas viagens sempre tinham para mim um sabor de aventura responsável, mesmo sendo apenas um adolescente.
Existem lembranças que às vezes tentamos sufocar, apagar com sentimentos ou outros pensamentos. Às vezes conseguimos tal façanha, outras vezes é como se tentássemos apagar um fogo jogando-lhe querosene. Assim eram meus pensamentos sobre aquelas terras antes desconhecidas, na verdade, andando por elas não me senti um forasteiro, mas senti-me como se elas fossem minhas, como se fizessem de algum modo parte de minha história. Pode até ser que isso seja assim, pois em minhas veias corre o sangue de um baiano e uma pernambucana, meu avô e minha avó maternos.
Pensei nostalgicamente – ao estar por aquelas bandas – sobre tudo o que houvera ocorrido nas meninices de meus avôs. Como gostaria de ouvir outra vez a voz de vovô Secundo me dizendo histórias de suas traquinagens nas águas do velho Chico, como da vez que ele ficou nadando na parte funda do rio enquanto a minha bisavó Raimunda, sua mãe, lavando roupas, dizia para ficar mais na beira, mas não a obedeceu. Mal 'Dindinha' fechou a boca e meu avô se espantou por estar perto de um animal que ele nunca tinha visto antes. O bicho que era peludo e tão preto quanto um anum, de patas curtas e de ar brincalhão nadava bem próximo, lado a lado ao meu avô. O susto e a carreira que deu dentro d'água fizeram-no nunca se esquecer de obedecer a sua mãe, mesmo nas pequenas coisas. Como tenho saudades das histórias que ele contava sobre o velho Chico!
A dor e saudades das lembranças daqueles sertões são tantas que não pude aguentar. Não me refiro às lembranças recentes, mas as lembranças mais antigas como aquelas fotos desbotadas quase sem cor, de quando eu era apenas um menino. São elas que gritam dentro de mim, me perturbam, me fazem perder o sono dizendo incisivamente que devo voltar novamente a molhar meus pés no São Francisco.
Anos atrás, ocorreu-me a mesma sensação que descrevo hoje. Uma nostalgia que nunca devia vir num dia de alegria, mas que pousou teimosamente sobre mim. Senti-me tão triste e tão só que desejei estar novamente naquelas terras, como se só a visita para rever o grande rio fosse o suficiente para curar essa dor. Assim, motivado por um desejo recorrente tornei a estar junto ao rio São Francisco, dessa vez com minha esposa, uma amiga e minha tia. Ficamos lá por duas maravilhosas semanas.
No dia anterior a nossa partida, fiz de tudo para ver o pôr-do-sol sentado a beira do grande rio, mas não pude concretizar esse desejo. Quando cheguei ao rio o sol já tinha se posto e só pude ver, espelhado naquelas águas, o amarelo ouro do céu transformar-se silenciosamente e vagarosamente em laranja, vermelho, roxo e por fim; azul escuro. O dia findou, assim como meu passeio!
Posso dizer que fiquei e não fiquei chateado, por não ter visto aquele ultimo pôr-do-sol, pois basta que eu feche os olhos nos dias de saudades como os de hoje e poderei ver claramente Petrolina, Juazeiro com o rio São Francisco reluzindo os últimos raios de sol que passam por debaixo da ponte. Poderei ver nitidamente as velas dos barcos de pesca tão coloridas. Poderei sentir o cheiro e o vento que vem do Rio. Tudo isso vem de minha mente, por causa daquela minha primeira e antiga memória e é ela própria que grita, implorando cada vez mais alto, solicitando que eu retorne e que não tarde a regressar.
São Luis (MA), 20 de fevereiro de 2011.
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