Toda vez que olho para o mundo
Juscelino Barão
Eu tinha seis ou sete anos quando o sentimento que descrevo agora me tocou pela primeira vez. Estávamos quase na metade dos anos 80 e a boa moral ainda tinha vez. Fui criado numa família que prezava os bons costumes. Nunca ouvi meu pai dizer um palavrão, contar ou se divertir com piadas obscenas. Nunca saiu de sua boca conversas tolas e sempre protegia a mim e a meu irmão de influencias negativas, meninos com mentes adiantadas para suas idades e que eram viciados em mentir. Proibições essas que sempre respeitamos. Nesta época tudo parecia tão fácil, bom e puro, menos pelo fato de eu não compreender como certos adultos se permitiam escutar, rir e aprovar as músicas de duplo sentido. Era muito estranho ver vizinhos que pareciam ter boa moral se divertindo com esse tipo de música. Minha mente infantil não conseguia entender. Eu pensava: ‘se a imoralidade é errada, como ele pode rir como que aprovando uma coisa destas. Ele deveria ficar indignado e desligar o rádio, deveria dar exemplo para nós crianças’, mas ele não o fez. Relembrando isso, tenho certeza absoluta que nos anos 80 a cena do mundo mais uma vez mudou e para pior. A desvalorização e desmoralização de tudo o que era bom começou ali. Aquela sensação que tive, de que algo estava errado, tinha real fundamento. Esse sentimento não era apenas um sentimento infantil ruim.
Mas porque me lembrei dessa sensação se ela ocorreu anos atrás? Não posso tentar me enganar. Contarei a verdade, a mais pura verdade: “ela não é tão antiga assim, pois ela é recorrente e se renova toda vez que ‘olho para o mundo’”.
Essa sensação volta toda vez que paro e observo calmamente – por exemplo – as composições que tocam e fazem sucesso. Digo para mim mesmo que temos nos tornado imbecis e medíocres, mas não quero acreditar no que vejo e ouço. Não existe mais o senso de certo ou errado, pois é proibido proibir. Muitos vão vociferar dizendo que são livres, pois o tempo da ditadura com suas censuras já passou e que agora podem fazer e ser o que quiserem, pois em suas vidas mandam eles. Claro, a libertinagem tomou a forma e lugar da liberdade. Você pode ser o que quiser até mesmo um idiota. Há em toda parte e esferas da sociedade uma inversão de valores que me dá nojo.
Recentemente em uma rede social li algumas postagens de uma jovem senhora sobre sua religiosidade. Ela postava sempre frases e imagens com montagens que falavam de unção, espírito santo, fé e evangelismo. De repente, as postagens mudaram de foco. Num post chegou a escrever: ‘estou indo comprar uns shortinhos pro carnaval’. Quis vomitar! A palavra para descrever isso é falsa moral. Como ‘deus’ deve estar feliz com isso! E o pior é que o mundo está cheio de gente assim. Agora posso ter uma pequena idéia do que sentem os ateus. Veio novamente a mim aquela conhecida sensação de que existe algo errado, bem errado com o mundo.
Num banco ou indo para o trabalho – de ônibus ou carro – estamos sempre com pressa. Numa fila de uma farmácia uma senhora solicitou que a deixasse passar na minha frente. Eu era o próximo, existiam atrás de mim umas quatro pessoas e eu já havia esperado seis pessoas serem atendidas. Particularmente acho isso moralmente incorreto. O que pude dizer foi que se todo mundo da fila concordasse, eu deixaria, pois ela não estava passando apenas na minha frente, mas na frente de todos. Ela apenas sorriu e desistiu. Ela era uma senhora, tinha idade de ser minha mãe. Como pude fazer isso? Meu coração doeu! Mal a senhora largou o produto na prateleira, sua filha sai de trás de um pilar e pergunta: o que foi mãe? ‘O rapaz que não me deixou passar na frente dele’ disse baixinho quase sussurrando de tão envergonhada. A filha pegou a mãe pelo braço e saíram do estabelecimento. A verdade é que a filha jovem usava a mãe para não pegar fila. Estamos atrasados, somos mais espertos, mais importantes e todos os outros em nossa volta são trouxas. Assim pude perceber que esse sentimento de outrora, insiste em me perseguir por todos os lugares que vou e estou quando olho pausadamente para o mundo.
Existem varias teorias sobre manipulação e controle mental das massas. Para mim não são apenas teorias, são realidades. Liguem a TV e percebam: as crianças nos desenhos animados são retratadas como tendo sempre o controle da situação e seus pais como tremendos idiotas. Em outros desenhos a figura dos pais nem existe, os jovens resolvem tudo sozinhos. Os adolescentes nos seriados não precisam dar satisfações a ninguém, são quase sempre rebeldes e se dão bem por solucionarem tudo ao seu modo; raras são as vezes que precisam de conselhos. Essas perversões estão afetando a sociedade, mas parece que ninguém percebe. Basta observar os filhos pequenos darem ordem aos pais no supermercado ou no shopping. Olhe como os filhos tratam os pais – ou os mais velhos – que não entendem tanto de tecnologia. E os pais apenas sorriem – às vezes um sorriso amarelo, é verdade, mas nada mais que isso é feito – como que aceitando pacificamente aquilo que não é normal. Onde seus filhos aprenderam a serem assim? Porque eles não dão crédito ao que seus pais dizem? A resposta tem a ver em grande parte com o tempo e ao que assistem pela televisão. Entretanto esse tipo de controle não está direcionado apenas aos jovens. Os mais experientes também são afetados por essa influencia perturbadora. Certa vez me deparei com a seguinte cena: jovens e senhoras convidadas a um aniversário de casamento estavam todas no quarto da anfitriã. Estavam ligadas no último capítulo da novela das oito. Todas estavam afoitas, apreensivas e davam gritos a cada ação na cena de fuga de um dos personagens da trama. A cada pulo, corrida e virada de esquina na escapada rendiam leves agitações e aplausos breves. Elas eram todas religiosas, com uma moral sempre impecável. Mas infelizmente, naquele momento, deixaram suas mentes serem controladas pela mídia. O personagem que corria era o vilão da estória. Pelos crimes que cometeu devia ser preso, mas as mulheres do quarto – que pregam a justiça, o fim do que é mau e o amor de Deus – estavam torcendo para que o criminoso fugisse. Qual a finalidade deste controle eu não sei, mas sei duas coisas a respeito dele: ‘primeiro que ele funciona, e segundo que não podemos esperar dele coisas boas, pois sempre perverte o juízo e nos apresenta o que é errado como normal e o normal como errado’ e tudo isso sorrateiramente. O ‘ruim’ disso tudo não é ser ‘pego’, podemos às vezes baixar a guarda, sermos influenciados negativamente e irmos até mesmo contra o que acreditamos piamente. A parte ‘boa’ é que essa recaída pode ser momentânea, mas, uma vez despertos aprendemos a lição e entendemos que não podemos descuidar nem um segundo e que devemos ficar atentos até nas coisas que parecem insignificantes. O ‘prejudicial’ mesmo é nunca ‘acordar’ desse tipo de controle ou cair num ciclo onde continuamente seremos manipulados até perder nossa identidade e achar ‘normal’ tudo o que é mau.
Postei numa rede social uma fotografia antiga com vários amigos de minha família num piquenique. Resolvi marcar na foto dois jovens cuja mãe estava conosco, na época ela nem namorava o pai deles. O primeiro comentário veio da filha. Ela associou as pessoas da foto a retirantes que fugiam da seca. Minutos depois, com meus comentários e com a ajuda do pai ela conseguiu identificar a mãe e a tia. Logo após o descobrimento dos personagens na foto e mesmo sabendo que entre eles estavam seus parentes, o segundo jovem, comentou que aquela foto era uma ‘aberração’. Os jovens de hoje ‘estão’ assim. Ignoram e desprezam o passado. Não sobe a sua compreensão o fato de que devem respeito a muitas pessoas e ao seu passado. Tudo o que são, devem – quer queiram quer não – aos que ficaram para trás em idade. O seu cabelo, a cor de sua pele, seu jeito de andar, de falar, o modo como cruza as pernas ao sentar, como pega no queixo ao pensar, tudo isso não pertence a eles. Somos sim uma figura completa, mas montada a partir de pequenos pedaços – como as peças de um quebra-cabeça. Nosso DNA carrega tanta coisa que desconhecemos e que não é só nosso, mas forma o todo que somos. Infelizmente grande parte da juventude trás consigo a maldição da presunção e orgulho, mas ela será arrancada gradativamente com o passar dos dias. Virão épocas em que os futuros jovens desprezarão a sua pessoa e os seus conselhos só porque envelheceu. Essa é uma verdade que escapa a grande maioria dos jovens. Eles sofrerão a penalidade por isso. Se temos vergonha dos velhos que nos pertencem, igualmente velhos nos tornaremos e tão mais desprezados seremos pela juventude de um tempo futuro. Há mesmo algo de errado com o mundo e com os jovens.
Em 2006 tive um instrutor de trânsito que instou com a turma de novos e futuros motoristas: “vocês não podem de maneira nenhuma esquecer a seta ao fazer qualquer conversão, mas isso é apenas pra passar na prova, depois não precisa se preocupar...” Que ‘conselho’ vindo de um instrutor qualificado do SEST/SENAT...! Quantos tantos outros conselhos desse tipo, de quem deve ser exemplo, nós não recebemos – por gestos e ações – todos os dias?
No geral o mundo tornou-se imoral e doente. Pensem na quantidade de casos de pedofilia que vieram à tona nos últimos anos. As perguntas que surgiam na mente de muitos enquanto assistiam os noticiários eram: ‘O que leva uma pessoa a fazer isso? Como alguém chega a desejar sexualmente uma criança?’ Pense por uns instantes e a resposta virá em sua mente. Volte sua atenção para os sons. Quais são os principais temas das músicas baianas e os pseudos-forrós de hoje? Qual é o tamanho dos manequins das dançarinas nas suas apresentações? O que ganha destaque nas suas coreografias? Tudo esta voltado não mais para o sensual, isso foi no passado, tudo hoje é sexo. Gestos, empinadas de bumbum, o balançar de quadris, dedinho na boca e por aí vai. Acabou a era das músicas de duplo sentido, hoje é aberto, escancarado e escrachado. E as crianças sabem de cor todas as letras e coreografias dessas músicas. Os pais até mesmos os vestem como cantores das tais bandas. Acham lindos os filhos imitando os artistas. Os gestos, a roupinha e os passos são tão perfeitos! ‘Numa criança isso não é sensual é apenas infantil’, amenizam os pais. Mas não é assim que os pedófilos vêem. Os pais irresponsavelmente expõem seus filhos aos olhos de quem é mau. Vestem seus filhos e filhas como prostitutas e choram amargamente sem saber o que fizeram de errado quando algum mal ocorre a sua prole.
Um senhor contratou uma pessoa para fazer uma grande reforma em seu banheiro. Comprou os melhores e mais caros materiais, afinal de contas é sua casa e sua família merece coisa boa. Ele desejava que tudo ficasse como no projeto. Não descansava um minuto, indagava, acompanhava, não aceitava desperdícios e solicitava sempre que se refizesse algo que saiu centímetros fora do esquadro. Isso é louvável, afinal, ele é guardião do seu dinheiro e de seus bens. Mas esse mesmo senhor é dono de uma empreiteira que presta serviços para o governo. Seu trabalho é recuperar vias da cidade, aí o seu esmero acaba. Obras mal feitas, material de segunda mão, descaso e despreocupação. Como pode um homem mudar seu caráter tão rapidamente?
Mesmo sabendo que virá a mim o sentimento de que algo não está ‘normal’, de que tudo está ‘diferente’ não paro de olhar silenciosa e vagarosamente para o mundo. Talvez seja isso que me mantém desperto. Quando achar que tudo está bem, podem ter certeza, fui contaminado. Cheguei à conclusão que um dia todas essas ações – que são pequenos gestos isolados e na maioria das vezes sem importância (por terem se tornados comuns) – se multiplicarão como bolor numa forma esquecida de pão. Surgirão aos montes como gusanos num animal putrefato. E serão tão nocivas como centenas de carrapatos num cão sem cuidados. Nesse momento essas ações se tornarão malditas até mesmo para os que praticam tais atos, pois já serão insuportáveis. Mas aí já será tarde demais.
Se pelo menos o meu vizinho tivesse ficado indignado e desligasse o rádio dando exemplo para nós crianças, em vez de sorrir – como que concordando com o que era mau..., mas ele não o fez. Definitivamente há algo de errado! É assim que me sinto quando observo calmamente o mundo.
São Luis-MA, 03 de março de 2012.
Comentários
Parabénssssssssssssssssss
lente texto!!!