MEU ÚLTIMO CIRCO



Juscelino Barão

          Aquele domingo parecia como o de hoje. Éramos três meninos banhados, penteados, perfumados e bem vestidos para assistir a um espetáculo de fim de tarde. Um circo estava na cidade.
          O mais velho de nós devia ter no máximo onze anos, mesmo assim saímos sozinhos. Fomos rápido para o terreno que ficava perto da prefeitura, era lá que os circos e parques eram montados. Não nos permitimos desviar a atenção do nosso objetivo, nem de nossa rota - meninos sempre se distraem com facilidade. O som hipnótico que vinha dos alto falantes do circo mesmo de longe, nos guiava até ele. Queríamos a todo custo chegar lá rapidamente. E como foi magnífico ver de novo instalado em nossa cidade o templo da alegria e diversão.
          Faz bastante tempo, mas consigo recordar algumas coisas daquele domingo. Consigo lembrar o cheiro bom de algodão doce sendo feito na hora, do quebra-queixo sendo vendido enrolado num papel marrom e da pipoca untada com manteiga derretida - será que era a do Adão pipoqueiro da vila do seu Afonso? Lembro também do contraste entre a cor do céu e cor da lona do circo. Lembro-me que essa foi a última vez que pisei num circo.


          "Senhoras e senhores..." disse o apresentador que agora se iluminava no meio do picadeiro. Fiquei eufórico! O show começara...
          Houve uma apresentação com cavalos que corriam no circulo do picadeiro com uma mulher se equilibrando em cima deles. Teve até um homem da platéia que foi convidado a tentar fazer o mesmo, mas acabou ficando sem as calcas - hoje eu sei que já estava tudo combinado. Vi feras sendo domadas por um homem corajoso de cadeira e chicote em punho. Assisti apreensivo o 'globo da morte'. Como faziam barulho aquelas motos. Mesmo assim tudo era só alegria. Eu já havia visto das outras vezes todas aquelas apresentações. Mas eu esperava com inocência infantil, o inicio de todas elas, como se fosse a minha primeira vez. Mas de todos os artistas, nenhum era mais esperado por mim do que os palhaços. Isso por que eles têm sempre novas piadas e inimagináveis presepadas. E és que eles são anunciados! Eu e uma porção de garotos fomos ao delírio - afinal de contas, esperávamos ansiosos por essa hora.
          Ríamos de tudo o que eles faziam. Eu gargalhava de felicidade e interagia com suas brincadeiras.
          Um dos palhaços virou-se para a platéia e perguntou:
          - Quem gosta da vovó?
          - Euuuuuuu! Nós, dezenas de crianças respondemos em uníssono.
          - Quem gosta do vovô?
          - Euuuuuuu! Também gritei.
          - Quem gosta da titia?
          - Euuuuuuu! Gritei mais alto ainda.
          - Quem gosta da mamãe?
          - Euuuuuuu! Quis ser ouvido por toda platéia.
          - Quem gosta do papai?
          Todos gritaram menos eu. Há alguns meses atrás eu havia perdido o meu pai.


          Naquele momento minha garganta secou. As lágrimas rolaram do meu rosto, mas tive vergonha da minha tristeza. Desci pelas tábuas da arquibancada e me escondi debaixo de toda platéia que alegre sorria enquanto eu sozinho chorava. Naquele domingo que parecia como o de hoje, foi a última vez que pisei num circo.


São Luís-MA, 12 de agosto de 2012.

Comentários

Unknown disse…
Como leitor: muito bom!
Como ser humano: meus pêsames!
Como irmão: alegre_se a verdadeira vida está para chegar!
"E enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram." Revelação 21: 4
Anônimo disse…
Lindo texto... muito emocionante, parabéns!!!
1º Não era Abel e sim, Adão...
2º O texto é emocionante, especialmente p quem viveu a história de pertinho junto com vcs....
3º Quando vc vier... vou com vc ao circo!!
Te amo muito primo!!
Juscelino Barão disse…
Corrigido Patrícia. Obrigado!
Flávio Guedes disse…
Sublime....
Tarciso Coelho disse…
Crônica. História real do dia-a-dia. Vivi esse Circo quando queria ser artista de Circo. Hoje sou artista da vida, vivo ávidamente querendo continuar vivo e estou vivo. Graças a Deus. Parabéns nobre Barão. Você é um grande artista. Tarciso Coelho.
Ailton Barros disse…
Sublime e encantador o sentimento despertado com essas palavras, tenho a satisfação de poder encontrar textos com essa emoção e essa brilhante organização das palavras.
Anônimo disse…
Parabéns pelo texto, muito bem elaborado, me fez sentir saudades e chorar... também já perdi meu velho pai... é cruel...
Abraço.
Anônimo disse…
Amigo Juscelino Barão o seu texto ratifica a minha crença, em que a alegria favorece a integração e a tristeza propicia a introspecção, algumas vezes nos levando ao isolamento e a dor, porém se há em tudo isso alguma recompensa, talvez seja um certo amadurecimento... Temos de saber lidar com a flutuação entre esses estágios, que são necessários e fazem parte da natureza humana.
Abraços do seu cúmplice.

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