MEU ÚLTIMO CIRCO
Aquele domingo parecia como o de hoje. Éramos três meninos banhados, penteados, perfumados e bem vestidos para assistir a um espetáculo de fim de tarde. Um circo estava na cidade.
O mais velho de nós devia ter no máximo onze anos, mesmo assim saímos sozinhos. Fomos rápido para o terreno que ficava perto da prefeitura, era lá que os circos e parques eram montados. Não nos permitimos desviar a atenção do nosso objetivo, nem de nossa rota - meninos sempre se distraem com facilidade. O som hipnótico que vinha dos alto falantes do circo mesmo de longe, nos guiava até ele. Queríamos a todo custo chegar lá rapidamente. E como foi magnífico ver de novo instalado em nossa cidade o templo da alegria e diversão.
Faz bastante tempo, mas consigo recordar algumas coisas daquele domingo. Consigo lembrar o cheiro bom de algodão doce sendo feito na hora, do quebra-queixo sendo vendido enrolado num papel marrom e da pipoca untada com manteiga derretida - será que era a do Adão pipoqueiro da vila do seu Afonso? Lembro também do contraste entre a cor do céu e cor da lona do circo. Lembro-me que essa foi a última vez que pisei num circo.
"Senhoras e senhores..." disse o apresentador que agora se iluminava no meio do picadeiro. Fiquei eufórico! O show começara...
Houve uma apresentação com cavalos que corriam no circulo do picadeiro com uma mulher se equilibrando em cima deles. Teve até um homem da platéia que foi convidado a tentar fazer o mesmo, mas acabou ficando sem as calcas - hoje eu sei que já estava tudo combinado. Vi feras sendo domadas por um homem corajoso de cadeira e chicote em punho. Assisti apreensivo o 'globo da morte'. Como faziam barulho aquelas motos. Mesmo assim tudo era só alegria. Eu já havia visto das outras vezes todas aquelas apresentações. Mas eu esperava com inocência infantil, o inicio de todas elas, como se fosse a minha primeira vez. Mas de todos os artistas, nenhum era mais esperado por mim do que os palhaços. Isso por que eles têm sempre novas piadas e inimagináveis presepadas. E és que eles são anunciados! Eu e uma porção de garotos fomos ao delírio - afinal de contas, esperávamos ansiosos por essa hora.
Ríamos de tudo o que eles faziam. Eu gargalhava de felicidade e interagia com suas brincadeiras.
Um dos palhaços virou-se para a platéia e perguntou:
- Quem gosta da vovó?
- Euuuuuuu! Nós, dezenas de crianças respondemos em uníssono.
- Quem gosta do vovô?
- Euuuuuuu! Também gritei.
- Quem gosta da titia?
- Euuuuuuu! Gritei mais alto ainda.
- Quem gosta da mamãe?
- Euuuuuuu! Quis ser ouvido por toda platéia.
- Quem gosta do papai?
Todos gritaram menos eu. Há alguns meses atrás eu havia perdido o meu pai.
Naquele momento minha garganta secou. As lágrimas rolaram do meu rosto, mas tive vergonha da minha tristeza. Desci pelas tábuas da arquibancada e me escondi debaixo de toda platéia que alegre sorria enquanto eu sozinho chorava. Naquele domingo que parecia como o de hoje, foi a última vez que pisei num circo.
São Luís-MA, 12 de agosto de 2012.

Comentários
Como ser humano: meus pêsames!
Como irmão: alegre_se a verdadeira vida está para chegar!
"E enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor. As coisas anteriores já passaram." Revelação 21: 4
2º O texto é emocionante, especialmente p quem viveu a história de pertinho junto com vcs....
3º Quando vc vier... vou com vc ao circo!!
Te amo muito primo!!
Abraço.
Abraços do seu cúmplice.