Sobre a obra literária “Cais da Sagração” do escritor Maranhense “Josué Montello”.
Chegaram até mim, pelas mãos de minha prima que estava passeando pelo Maranhão, algumas coisas. De uma família muito querida vieram alguns camarões. E a meu pedido, ela me comprou um livro que há tempos queria possuir.
Os camarões, decidi comê-los aos poucos. Um bocado hoje, outro bocado três dias para a frente e assim está sendo. Como-os regradamente não querendo que acabem logo, tentando assim adiar o seu inevitável fim.
Eu mesmo os preparo. Quero ter o prazer de escolhê-los e levá-los ao fogo. A decisão de ser o único a participar deste ritual é um ato egoísta. Assim sou, antes de qualquer outro, o primeiro a sentir o aroma ascendendo da panela - como que querendo que não sobrasse seu cheiro para mais ninguém. Também sou o primeiro a colocá-los, depois de prontos, jeitosamente no prato. Também sendo o primeiro a comê-los. E digo isso sem pudor algum: "sou o primeiro a comê-los. Primeiro e o único". Os de minha família não são afeitos a frutos do mar. "Ainda bem!", penso cínica e gulosamente.
Quanto ao livro, confesso que demorei mais de uma semana para começar a folheá-lo. E faz tempo que desejo lê-lo. Tentei adquiri-lo de outras vezes, mas sem sucesso. E agora que eu o tenho em mãos demoro-me a iniciar sua leitura. O livro que ela me trouxe é uma obra do escritor maranhense Josué Montello, lançado em 1971, intitulado "Cais da Sagração''.
Ontem mesmo só consegui ler apenas 25 das 375 páginas que o livro possui. O conteúdo destas poucas páginas lidas são apenas a história do autor por trás do livro. De quando e como surgiu sua inspiração para a história e de onde recebeu influência para criar a personagem do mestre Severino.
Nem comecei a ler a história propriamente dita e já chorei muito. Chorei porque o livro, que agora tenho em mãos - bem como outras obras do autor - tem uma influência muito grande sobre mim. As mãos que outrora ansiavam tê-lo, agora morgam diante do peso que ele simboliza.
Para mim os livros de Josué Montello carregam um pouco de todos os que passaram por minha vida em São Luis. Cada pessoa que conheci está como que representada lá, mesmo aqueles cujas características e traços nem são mencionados nas obras que li.
Por isso me demoro a ler esse exemplar. Me dói, pois é como se me reencontrasse com a terra que aprendi a amar. Como se momentaneamente esbarrasse mais uma vez com meus amigos e conhecidos. Mas eles apenas topam comigo e passam. E quando fecho o livro, numa pausa, eles somem. São substituídos por uma saudade que fica e essa saudade se torna cada vez maior... Por isso vou devagar.
Ao contrário do que se possa imaginar essa dor me é benigna pois me faz recordar que estou vivo e que há muito o que aproveitar.
As paginas deste livro tornaram-se para mim como aqueles camarões. Vou saboreando regradamente, tentando assim retardar o seu inevitável fim.
Juscelino Barão
Picos-PI, 14 de agosto de 2021

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